sábado, 19 de março de 2011

Um Olhar Sobre " A Produtividade da Escola Improdutiva"


Um Olhar Sobre "A  Produtividade da Escola Improdutiva"
Claudio da Costa
Professor da  Universidade Estadual de Alagoas - UNEAL - Curso de Formação de Professores
Disciplina: Educação e Politicas Públicas.


A formação docente vem sendo um tema amplamente discutido nas instâncias acadêmicas e governamentais, colocando em foco a compreensão cada vez maior da importância do educador para a formação do sujeito. E a nova LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação) 9394/96, procura situar o docente como eixo principal da qualidade da educação, apresenta a formação docente e traz em seu interior questões essenciais para sua prática.
            Nesse contexto, é imperativo uma análise mais profunda desse teor de formação docente e a relação com o mundo do trabalho, em constantes metaformoses. A utilização dos discursos de motivação possivelmente vem-se constituindo estratégias das políticas públicas neoliberais, e desse modo se entende esses moldes de estratificação da realidade para uma inconstante subjetividade da atividade docente. Considerando tais enfoques presentes na atualidade, imaginamos que um trabalho investigativo possa ser proveitoso para uma compreensão das relações de trabalho no âmbito escolar, com toda a fragmentação e desqualificação dessa formação, para o surgimento de um novo trabalhador adestrado para o processo discursivo pernicioso dos meios de produção que necessitam de um trabalhador cada vez mais polivalente e flexível para atender as ordens imprimidas de uma cultura já posta pelos meios de produção capitalista. Com AMARAL (2007, p.20) entendemos por “discurso um todo complexo e como tal não se restringe ao texto que o representa empiricamente”.
           Percebe-se assim que se configura um cenário todo reestruturado pelo mercado de trabalho, o qual precisa dessa forma de “mão-de-obra do conhecimento” e não mais da força bruta como foi a um dado momento na sociedade. Fazendo a utilização dos discursos das palestras de formação como viés para a prática compulsória do neoliberalismo.
           Assim, é gritante a necessidade de ir além dessas práxis diárias que manipulam e direcionam o trabalho docente em seus discursos mórbidos destinados à efetivação de um olhar pedagogicamente constituído pelo monopólio capitalista, de um novo e mais competente trabalhador que surge na perspectiva de uma maior produção e rentabilidade. Com esse objetivo é que se faz necessário utilizar o aporte teórico da Análise de Discurso de linha francesa porque “visa à compreensão de como um objeto simbólico produz sentidos, como ele está investido de significância para e por sujeitos” (ORLANDI, 2003, p.26).
           Dessa forma, que relação o discurso da motivação na formação docente tem com as políticas neoliberais que objetivam sustentar a produtividade da escola improdutiva? 
  • Quais as estratégias discursivas que constroem os efeitos de sentido desse discurso?
  • Existe conexão do discurso da motivação com o discurso do neoliberalismo?
Acredita-se que o sistema neoliberal, além de se preocupar com a produtividade em grande escala, atinge o sistema educacional com o discurso da motivação na formação do trabalho docente – as de perspectiva de motivação – que são postuladas como força manipuladora para concretizar os anseios governamentais. Assim, a formação docente tende fortemente a ficar subordinada a um discurso que direciona o trabalho do professor a ser cooperativo, passivo e flexível. Pensando sobre essa questão, Mészáros (1981) indaga se a escola atende ou não a essas necessidades de produção do capital.
             Em resposta ao questionamento de Mészáros, apontamos o fato de que, para garantir o atendimento dos objetivos do capital pela escola, com grande habilidade de camuflagem, o sistema neoliberal corrói as estruturas sociais para se fortalecer mediante as ações do homem em seu processo para o trabalho educacional, dando ênfase a uma forma discriminatória e perversa de educar para a “cidadania”. Orlandi (2003, p.11), nos faz entender isso quando diz que “toda formação social, no entanto, tem formas de controle de interpretação, que são historicamente determinadas”.
             “Na sociedade capitalista a ideologia encontra formas para cumprir a sua função específica: dissimular evidências de parcerias entre as classes para a manutenção da ordem vigente, a de dominância do capital” (AMARAL, 2007, p.25). Com Amaral, compreendemos que é possível dizer que o discurso do capital se configura no cenário educacional, isto é, as forças econômicas atuam como o fator maior de (re) produção do mesmo sistema.
             É imperativa a compreensão do mundo do trabalho e a educação dentro do contexto do conflito de classes para um entendimento dos novos moldes de estruturação dos sistemas educativos e do mundo empresarial formadores de “mãodeobra do conhecimento”, para assim incidir na gênese o seu real sentido de ser, o qual efetiva ainda hoje a expressão de Cavalcante (2007) apud Lukács  “o homem é um ser que responde”, nisto perceber-se que o homem é um ser que reage as diversas  circunstâncias que lhe são impostas no seu cotidiano.
             Para se fazer compreender o mundo do trabalho é preciso fazer uma retomada histórica de sua essência para que nessa perspectiva se configure todo o trajeto ao longo do percurso de compreensão assimilada e desvelada pela classe trabalhadora. E a burguesia que, em cada época, o próprio capital mascara e se faz presente frente as diretrizes educacionais impostas pelo BID, FMI, BIRD, CEPAL,  cria dessa forma um arcabouço de descompasso rumo a sua polarização e da própria condição de subsistência das relações sociais.
             O capital cria um clima de instabilidade, de insegurança, e a saída para uma retomada das atividades como força produtiva é o discurso da motivação do trabalho docente, que enfoca, numa perspectiva pragmática, um poder individual de que “você pode”; “você é capaz”; “acredite em você”; “descubra o potencial dentro de você”; “você é livre pra fazer escolhas”. Percebe-se que a hipocrisia nessa perspectiva é para abstrair da realidade o indivíduo, o conjunto não funciona, apenas o individualismo sobrepõe-se. Cria-se um reino de liberdade sendo enfatizada por Marx que diz “no capitalismo quem é livre é o capital, não o homem”.
             Num discurso de alienação, a falácia de motivação promete fazer milagres, objetiva preparar o trabalhador-docente para cada vez mais ser competitivo, auto-suficiente, flexível, democrático, hábil, porém, na dinâmica do capital. Ele é que define as diretrizes a serem praticadas dentro ou fora da escola ou em qualquer outra empresa. Segundo Orlandi (2003, p.17), “O processo de resistência é justamente isso: estabelecer um outro lugar de discurso onde se possa (re) significar o que ficou “fora” do discurso. 
             Os textos de motivação parecem impressionar pela suposta facilidade de compreensão, auto poder de suficiência em si mesmo. Nomes como Hamilton Wernek, Augusto Cury, Paulo Coelho, Skettini e outros são um verdadeiro engodo em tela visual configurada para atender a ordem neoliberal capitalista, para atender as exigências mais individualizadas do mercado, no melhor tempo e com melhor “qualidade”, é preciso que a produção se sustente num processo produtivo flexível. Antunes (1998, p. 26), entende essa qualidade como o discurso da corrente de motivação na perspectiva de que a educação precisa ter, uma vez que o trabalho docente é a ponte para se chegar a outros tantos da sociedade, que acreditem em seu potencial individual e cada vez mais se enganem com o paralelo fictício criado pela áurea da auto – suficiência.

              Nessa perspectiva, é possível que o discurso da motivação seja um instrumento pedagógico utilizado que orienta a formação docente para que coopere, que se ajude e seja tão domesticado quanto a necessidade do capital o configure, construindo assim um trabalhador que possa aderir ao discurso de motivação e aceite que a saída individual é a única forma de sobreviver num mundo do trabalho em constantes mudanças. Os docentes passam a vislumbrar na literatura de motivação uma alternativa para diminuir as suas insatisfações e angústias. Dessa maneira, o capital infere nesse discurso como uma estratégia de controle e de qualificação da força de trabalho.
              Entende-se que o processo discursivo em que se constitui a prática dessas palestras gera efeitos dos quais o docente tende a fazer mudanças individuais, imediatistas, capazes de criar ilusões de felicidades, provocando uma eficácia entre pensamento e ação.
              As mágicas oferecidas pelo discurso da motivação parecem ensinar receitas baseadas em experiências pessoais, procedimentos que devem ser seguidos passo a passo, tendo como resultado o sucesso e soluções para possíveis problemas no trabalho como também na vida pessoal, engodo utilizado pelas políticas neoliberais para cada vez mais massificar a ação docente frente às diretrizes trabalhalista educacionais.
              Desse modo é necessário uma pesquisa mais aprofundada a respeito desse discurso da motivação na formação docente e a sua relação com a “produtividade da escola improdutiva”, é pertinente tanto para a formação docente, como também para servir de material teórico – metodológico para os cursos de formação desses profissionais.


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