Saiu resultado da prova do mérito 2011, confira a lista dos aprovados no link do DOE
http://diariooficial.imprensaoficial.com.br/nav_v4/index.asp?c=15&e=20110930&p=1
Acabou a espera, os professores que foram aprovados irão receber no mês de Outubro, com aumento retroativo ao dia 01 de Julho
quinta-feira, 15 de setembro de 2011
Aumento dos dias letivos para 220 : estão de brincadeira?
Somente quem está fora da realidade vivida nas escolas para achar que este é o problema da educação no Brasil. Infelizmente a sociedade, incauta, irá aplaudir esse projeto sem perceber que, em boa parte das escolas brasileiras, o que vemos é um “depósito” de crianças/adolescentes, sem um ambiente propício ao desenvolvimento intelectual, social e afetivo . Se o Sr. Ministro estivesse falando em escolas de tempo integral, com infraestrutura e com profissionais capacitados (e bem remunerados), eu também estaria aplaudindo, mas esse projeto apresentado é pura demagogia. Sabemos que criar escolas em tempo integral exige investimentos e isso está longe de acontecer, então o mais fácil e barato é criar leis que pareçam eficazes, mas que na prática não representam ganhos na qualidade da educação. Basta lembrarmos que há alguns anos , quando eu fazia o ginásio e o colegial, só tínhamos 180 dias letivos e ainda assim o ensino era muito superior ao que temos hoje com 200 dias.
Com certeza o Ministro Fernando Haddad deu um grande passo rumo à prefeitura de São Paulo, já que grande parte da população vai acreditar que o aumento dos dias letivos irá melhorar a qualidade de ensino. Parabéns para o ele! Pêsames para nós que estamos longe de vermos politicas públicas sérias em favor da qualidade da educação.
Mirtes
Ministro defende mais dias letivos nas escolas
LARISSA GUIMARÃES
DE BRASÍLIA - uol educação
DE BRASÍLIA - uol educação
O ministro da Educação, Fernando Haddad, afirmou nesta quinta-feira que prefere ampliar o número de dias letivos nas escolas em vez de ampliar o número de horas/aula.
"Há alguns estudos que mostram que o número de dias é mais importante do que o número de horas por dia", disse, após sair de um evento em Brasília. "O impacto sobre a aprendizagem é até maior quando nós falamos de dias letivos por ano", completou.
Anteontem, o ministro anunciou a intenção de ampliar a jornada escolar obrigatória nas escolas públicas e particulares do país. O MEC apontou duas possibilidades: ou os colégios aumentam o número de dias letivos (de 200 para 220) ou o total de horas de aulas por dia.
Hoje, o ministro afirmou que o ministério considera inclusive a hipótese de deixar que cada escola escolha a maneira de ampliar a jornada.
"Estamos discutindo a proposta com secretários municipais e estaduais. Temos de ver quais são as possibilidades concretas de rede física e qual é a maior conveniência", afirmou.
sábado, 27 de agosto de 2011
Lei do piso do magistério e "Lei do 1/3"
Em 2008 foi aprovada a lei 11.738 que estabelece um piso nacional para os profissionais do magistério e que prevê que 1/3 da carga horária dos professores seja cumprida para atividades de preparação de aulas, planejamentos e reuniões com equipe escolar (HTPC e HTPL), diminuindo dessa forma a quantidade de aulas dadas. Esse é ponto mais esperado pelos professores da rede estadual de São Paulo, pois o estado já paga mais que o piso nacional.. Quando a lei foi publicada, quatro governadores entraram com Ação Direta de Inconstitucionalidade contra e, desde então, o processo estava em julgamento. No dia 24 de Agosto de 2011 o STF publicou o acórdão em favor da lei e a CNTE (Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação) comemora. Leia abaixo o artigo publicado no site da CNTE.
Mirtes
STF publica acórdão sobre piso do magistério e a “Lei do 1/3”
A decisão (acórdão) do Supremo Tribunal Federal, publicada no Diário da Justiça de 24 de agosto de 2011, sobre o julgamento de mérito da ação direta de inconstitucionalidade (ADIn 4.167), torna inconteste qualquer opinião que desafie a constitucionalidade e a aplicação imediata da Lei 11.738 (Piso do Magistério), sobretudo quando observados os esclarecimentos do Tribunal na ementa da decisão, assim dispostos:
1. Perda parcial do objeto desta ação direta de inconstitucionalidade, na medida em que o cronograma de aplicação escalonada do piso de vencimento dos professores da educação básica se exauriu (arts. 3º e 8º da Lei 11.738/2008).
2. É constitucional a norma geral que fixou o piso dos professores do ensino médio com base no vencimento, e não na remuneração global. Competência da União para dispor sobre normas gerais relativas ao piso de vencimento dos professores da educação básica, de modo a utilizá-lo como mecanismo de fomento ao sistema educacional e de valorização profissional, e não apenas como instrumento de proteção mínima ao trabalhador.
3. É constitucional a norma geral que reserva o percentual mínimo de 1/3 da carga horária dos docentes da educação básica para dedicação às atividades extraclasse.
Ação direta de inconstitucionalidade julgada improcedente. Perda de objeto declarada em relação aos arts. 3º e 8º da Lei 11.738/2008.
Sobre a possibilidade de, nos próximos cinco dias, algum gestor público interpor embargos de declaração à decisão do STF, alegando possíveis obscuridades, contradições ou omissões no acórdão, a CNTE esclarece que essa ação (muitas vezes protelatória, e única possibilidade de recurso ao julgamento) não suspende a eficácia da decisão. Ou seja: a Lei 11.738 deve ser aplicada imediatamente.
Importante reforçar que, para quem deixar de vincular (no mínimo) o piso nacional aos vencimentos iniciais de carreira, os sindicatos ou qualquer servidor deverão ingressar com Reclamação no STF, bem como denunciar os gestores, descumpridos da Lei, por improbidade administrativa.
Em relação à hora-atividade, a falta de eficácia erga omnes e de efeito vinculante à decisão não dispensa o gestor público de observá-la à luz do parágrafo 4º do art. 2º da Lei 11.738, uma vez que o dispositivo foi considerado constitucional pelo STF. Nestes casos, a cobrança do cumprimento da Lei deverá ocorrer perante o judiciário local. (CNTE, 24/08/11)
Fonte: http://www.cnte.org.br/index.php/comunica%C3%A7%C3%A3o/noticias/8723-stf-publica-acordao-sobre-piso-salarial-do-magisterio-
sábado, 20 de agosto de 2011
Que país é esse? Greve de professores em 11 estados é praticamente ignorada.
Uma greve esquecida
O Brasil precisa decidir se educar a sua infância se enquadra entre as essencialidades do Estado e da sociedade. Se assim entender, terá que repensar o tratamento dispensado a um protagonista que ocupa a linha de frente desse processo: o professor, sobretudo o do ensino básico. O principal emissário da sociedade brasileiro junto à infância, dedicado 40 horas semanais a socializar algo como 50 milhões de meninos e meninas –já em idade escolar ou a caminho - recebe pouco mais de dois salários mínimos por mês. Professores de 11 Estados entraram em greve por um holerite de R$ 1.187 reais. O artigo é de Saul Leblon.
Saul Leblon – Carta Maior
Às missões essenciais destinam-se os melhores recursos. Não importa quais sejam elas, serão sempre eles: os mais eficazes, mais qualificados, os que desfrutam de maior respeito e como tal são valorizados e reconhecidos.
O Brasil precisa decidir se educar a sua infância se enquadra entre as essencialidades do Estado e da sociedade. Se assim entender, terá que repensar o tratamento dispensado a um protagonista que ocupa a linha de frente desse processo: o professor de um modo geral, mas, sobretudo, o do ensino básico.
Em meio à voltagem desordenada dos mercados financeiros mundiais nas últimas semanas, o país assistiu dia 16 de agosto, quase indiferente, como se fora uma manifestação da natureza e não uma interpelação política, a uma greve desconcertante.
Educadores do ensino básico paralisaram suas atividades para reivindicar o cumprimento de uma lei de 2008 que destina à categoria um piso salarial hoje equivalente a R$ 1.187 reais.
Isso mesmo. O principal emissário da sociedade brasileiro junto à infância, dedicado 40 horas semanais a socializar algo como 50 milhões de meninos e meninas –já em idade escolar ou a caminho-- recebe pouco mais de dois salários mínimos por mês.
É o que vale um professor do nível básico no país que desponta como uma das potências do século XXI.
A greve informou-nos que em 11 estados da federação nem isso ele vale.
O salário do professor do ensino básico é uma responsabilidade de estados e prefeituras. Prefeitos e governadores alegam não dispor de recursos para arcar com o piso.
O governo federal, através do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação, Fundeb, criou uma linha de equivalência para esses casos.
Seu montante remete a uma proporção fiscal ilustrativa: os recursos previstos, de R$ 1 bi, equivalem ao valor surrupiado à Receita Federal apenas por uma rede de sonegação desbaratada no mesmo dia da greve, envolvendo 300 empresas da área química.
Para acessar recursos complementares à folha dos professores, porém, há algumas condicionalidades. Entre elas, que as prefeituras destinem 25% do seu orçamento à educação e despesas afins. Algo que, de resto, o próprio governo federal não faz.
Justiça seja feita, o orçamento do MEC triplicou no governo Lula. Saltou de R$ 17 bi para atuais R$ 69 bi, refletindo uma atenção à escola poucas vezes observada no país.
Foram criadas 16 novas universidades e dezenas de campi avançados. Cerca de 260 escolas técnicas dobraram a rede existente. Outras 208 unidades serão construídas agora no governo Dilma. Até 2014, os 500 municípios polo brasileiros terão pelo menos um centro educacional de formação técnica. Oito milhões de bolsas ampliarão essa capilaridade da educação profissionalizante, através do Pronatec. Uma espécie de Pronaf da educação técnica, esse programa de óbvia pertinência aguarda aprovação no Congresso há meses.
São saltos importantes, aos quais cumpre acrescentar ainda o aumento de 21% dos recursos do Fundeb este ano, que inclui maior atenção às creches. Se abstrairmos a base de comparação e o Everest das carências nacionais seriam números quase irretocáveis.
O que será feito de um país, e a velocidade com que isso se dará, depende porém das proporcionalidades que carências e demandas desfrutam no orçamento nacional.
O orçamento federal de 2011 destina praticamente o dobro do que reserva à educação ao pagamento de juros aos rentistas da dívida pública brasileira: R$ 69 bi e R$ 117,9 bi, respectivamente. Cada vez que eleva a taxa de juro o governo está destinando uma fatia maior do orçamento –presente ou futuro - aos detentores de papéis da dívida pública.
Num país socialmente extremado, uma das sociedades mais desiguais do planeta, não há, efetivamente, dinheiro suficiente para tudo. Governar aqui, mais que em qualquer lugar, é priorizar. Mas as proporções citadas indicam que também significa arguir: estamos no caminho certo?
O Estado brasileiro tem como meta pagar ao professor de ensino básico um salário equivalente hoje a R$ 3 mil reais num prazo de dez anos. O prazo é compatível com a essencialidade da tarefa a ele atribuída?
Arregimentará os melhores, os mais preparados, os mais eficientes para a missão?
As evidências colhidas pelo próprio governo mostram que não.
Pesquisas citadas pelo Conselho Nacional de Secretários da Educação indicam que os melhores alunos da universidade hoje fogem da carreira do magistério. Motivo: a defasagem salarial da ordem de 40% comparativamente ao início de carreira em outras profissões com diploma superior.
Um levantamento feito em 2008 pela Fundação Lemann, cotejando inscrições de vestibular e resultados alcançados no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), concluiu que os 5% com as piores notas no Enem decidiram ser professores.
Os melhores optaram por áreas médicas e de engenharia, melhor remuneradas.
Não por acaso, tem crescido no país o número de professores do ensino básico sem diploma superior. Eram 594 mil em 2007; saltaram para 636 mil em 2009.
Através da Universidade Aberta do Brasil, o governo pretende formar 330 mil deles em cinco anos. Especialistas e sindicatos questionam a qualidade da formação à distância como é o caso dos cursos oferecidos pelas UAB. Mas o balanço dos presenciais também deixa muito a desejar.
Hoje, 25% dos que abraçam o magistério estão sendo diplomados em cursos considerados ruins pelo próprio MEC.
A educação republicana, herança benigna da Revolução Francesa, é aquela que rompe a odiosa distinção de berço. Ao conceder um mesmo ponto de partida igual para todos— um ensino ‘público, gratuito e de qualidade’, como dizem os estudantes chilenos há 3 meses nas ruas por isso— secciona a transmissão da desigualdade. Impede que floresçam duas infâncias dentro de um mesmo país. Acordes da Marselhesa ao fundo. Ponto.
A ruptura da transmissão quase biológica da herança de berço – um dever da escola republicana - patina no país. Patina até na França, diga-se. Investigações baseadas no Enem indicam que a origem familiar continua a pesar decisivamente no desempenho escolar. Mais de um terço das 100 melhores notas registradas no Enem no Rio de Janeiro, por exemplo, foram obtidas por estudantes cujos pais tiveram formação superior. Em Brasília, esse número dobra: 76 de 100.
É um círculo perversamente vicioso. A baixa remuneração do professor desdobra-se em alunos com formação precária seminal que se arrastam daí em diante, da defasagem etária à desistência ou o déficit estrutural de formação. O conjunto subverte a finalidade republicana da educação, capturada assim como plataforma de reprodução da desigualdade que deveria combater.
O governo sabe disso. Deixou claro seu diagnóstico no novo Plano Nacional de Educação, o PNE. Entre 20 metas principais, ele destina 4 à valorização do professorado. Formação e remuneração, diz o documento, constitui a chave para o futuro da educação e do país.
O problema é a assimetria entre o diagnóstico e a destinação de recursos. Ela se explica pela força desproporcional dos interesses que tencionam essa relação. Para que as boas intenções do PNE sejam factíveis, o país teria que elevar o investimento em educação dos atuais 5% do PIB para 7%.
O governo concorda. Mas planeja vencer essa travessia em dez anos. Uma década, a 0,2% de acréscimo real de investimento por ano.
Trata-se de uma visão incremental muito à gosto dos mercados e de seus teóricos. Tudo se resolve gradualmente, sem a necessidade de rupturas na divisão da riqueza. Na vida real de uma nação a urgência tratada em regime de longo prazo muitas vezes é a escolha que leva ao destino oposto ao almejado.
Quanto custará socialmente esse roteiro de tartaruga resignada? Melhor: como modificar esse passo claudicante?
O Brasil dispõe hoje de uma incontrastável rede de controles financeiros e ideológicos, públicos e privados, nativos e forâneos, com braços que se articulam de dentro e de fora do governo, indo das universidades às consultorias de mercado, da prontidão midiática aos partidos políticos conservadores; esse redil articulado e eficiente trabalha sob pressão máxima para não deixar escapar um objetivo claro: garantir que anualmente se reserve algo como 3% do PIB em recursos fiscais ao pagamento de juros da dívida pública (cujo serviço efetivo atinge o dobro disso quando somados juros totais, capitalizações etc).
Assegurar o juro da dívida púbica é uma essencialidade do conservadorismo. Algo perseguido com o recrutamento dos melhores quadros, os mais contundentes instrumentos e todas as caixas de ressonância ideológica necessárias, das convictas às remuneradas. Os resultados, como se sabe, são notáveis: o Brasil é campeão mundial em custo financeiro; pratica as maiores taxas de juros do planeta e remunera religiosamente os títulos públicos com elas.
O tratamento incremental dispensado à educação , em contrapartida, sobretudo, aos salários do nível básico, reflete a aceitação de um interdito ideológico. O mesmo que faz algumas das economias mais ricas e poderosas da terra girar numa espiral descendente sem dispor de um ponto de apoio fiscal para sair da crise.
O consenso conservador instituiu nas últimas décadas que os ricos –bancos e rentistas, sobretudo— não deveriam ser taxados adequadamente em seus lucros e patrimônio em benefício da sociedade.
O dogma deixou aos Estados a opção de se tornarem mínimos em serviços e responsabilidades. Ou tomarem emprestada uma fatia da riqueza plutocrática, endividando-se a juros para proceder a investimentos e sustentar atribuições intransferíveis. Deixou-lhes também a partitura das privatizações e a do sucateamento que o Brasil dos anos 90 tocou e ouviu como aluno aplicado.
A captura do orçamento público pela lógica rentista do endividamento esgotou-se após os excessos cometidos em seus próprios termos. Entre eles a explosão do crédito sem critério, propiciado pela desregulação precedente, e das fraudes de proporções ferroviárias.
O imenso passivo acumulado regurgita agora no metabolismo econômico mundial. Um bolo de difícil digestão. Sem afrontar o dogma fiscal que impede de taxar os ricos, sobrará aos pobres mastigá-lo e serem triturados por ele durante anos.
Se for esse o caminho vitorioso aqui e alhures, o salário dos professores do ensino básico dificilmente alcançará a faixa dos três mil reais em uma década. Talvez nem em duas.
Argumentos éticos ao som da Marselhesa tocam tangencialmente o raciocínio frio de quem lucra com o fervor colegial do Tea Party. Ou dos que, em nome do ‘custo Brasil’, extinguiram a CPMF subtraindo R$ 40 bilhões por ano à saúde pública.
A esses talvez fosse mais pertinente lembrar que demonstrações explícitas de anomia social, como as registradas em Londres, não surgem do vazio.
Um estudo de Unicef, de 2007, realizado exclusivamente com países considerados desenvolvidos, oferece uma pista e um alerta de como as coisas se dão.
Intitulado "Pobreza Infantil em Perspectiva: visão de conjunto do bem-estar da criança nos países ricos", a pesquisa assume que a verdadeira medida de uma nação está na forma como ela cuida das suas crianças. A Unicef estende a fita métrica em seis dimensões da infância: a saúde e a proteção; a segurança material; a educação e socialização e o crucial modo como se sentem amadas, valorizadas e integradas na família e na sociedade onde nasceram.
O trabalho avaliou 21 países ricos abrangendo mais de 40 itens de vida material e subjetiva agrupados nas seis dimensões citadas.
A Inglaterra figurou em último lugar no conjunto de notas de cinco das seis dimensões em toda a série.
Trata-se de um balanço devastador da infância e da juventude criadas em 26 anos de governo conservador de Margareth Tatcher. Período em que se relegou a educação pública, as políticas sociais, empresas de Estado e valores associados à solidariedade e ao bem-comum a um agressivo moedor de carne de condenação ideológica e fiscal.
Valioso justamente por anteceder em cinco anos os atuais distúrbios em Londres, o trabalho pode ser consultado na íntegra no site do Centro de Estudos Innocenti da UNICEF.
Os alertas contidos no relatório merecem atenção não apenas de ingleses perplexos. Lideranças e autoridades brasileiras talvez encontrem ali boas razões para redimir sua indiferença diante da greve de abnegados professores de 11 Estados por um holerite de R$ 1.187 reais por mês.
O Brasil precisa decidir se educar a sua infância se enquadra entre as essencialidades do Estado e da sociedade. Se assim entender, terá que repensar o tratamento dispensado a um protagonista que ocupa a linha de frente desse processo: o professor de um modo geral, mas, sobretudo, o do ensino básico.
Em meio à voltagem desordenada dos mercados financeiros mundiais nas últimas semanas, o país assistiu dia 16 de agosto, quase indiferente, como se fora uma manifestação da natureza e não uma interpelação política, a uma greve desconcertante.
Educadores do ensino básico paralisaram suas atividades para reivindicar o cumprimento de uma lei de 2008 que destina à categoria um piso salarial hoje equivalente a R$ 1.187 reais.
Isso mesmo. O principal emissário da sociedade brasileiro junto à infância, dedicado 40 horas semanais a socializar algo como 50 milhões de meninos e meninas –já em idade escolar ou a caminho-- recebe pouco mais de dois salários mínimos por mês.
É o que vale um professor do nível básico no país que desponta como uma das potências do século XXI.
A greve informou-nos que em 11 estados da federação nem isso ele vale.
O salário do professor do ensino básico é uma responsabilidade de estados e prefeituras. Prefeitos e governadores alegam não dispor de recursos para arcar com o piso.
O governo federal, através do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação, Fundeb, criou uma linha de equivalência para esses casos.
Seu montante remete a uma proporção fiscal ilustrativa: os recursos previstos, de R$ 1 bi, equivalem ao valor surrupiado à Receita Federal apenas por uma rede de sonegação desbaratada no mesmo dia da greve, envolvendo 300 empresas da área química.
Para acessar recursos complementares à folha dos professores, porém, há algumas condicionalidades. Entre elas, que as prefeituras destinem 25% do seu orçamento à educação e despesas afins. Algo que, de resto, o próprio governo federal não faz.
Justiça seja feita, o orçamento do MEC triplicou no governo Lula. Saltou de R$ 17 bi para atuais R$ 69 bi, refletindo uma atenção à escola poucas vezes observada no país.
Foram criadas 16 novas universidades e dezenas de campi avançados. Cerca de 260 escolas técnicas dobraram a rede existente. Outras 208 unidades serão construídas agora no governo Dilma. Até 2014, os 500 municípios polo brasileiros terão pelo menos um centro educacional de formação técnica. Oito milhões de bolsas ampliarão essa capilaridade da educação profissionalizante, através do Pronatec. Uma espécie de Pronaf da educação técnica, esse programa de óbvia pertinência aguarda aprovação no Congresso há meses.
São saltos importantes, aos quais cumpre acrescentar ainda o aumento de 21% dos recursos do Fundeb este ano, que inclui maior atenção às creches. Se abstrairmos a base de comparação e o Everest das carências nacionais seriam números quase irretocáveis.
O que será feito de um país, e a velocidade com que isso se dará, depende porém das proporcionalidades que carências e demandas desfrutam no orçamento nacional.
O orçamento federal de 2011 destina praticamente o dobro do que reserva à educação ao pagamento de juros aos rentistas da dívida pública brasileira: R$ 69 bi e R$ 117,9 bi, respectivamente. Cada vez que eleva a taxa de juro o governo está destinando uma fatia maior do orçamento –presente ou futuro - aos detentores de papéis da dívida pública.
Num país socialmente extremado, uma das sociedades mais desiguais do planeta, não há, efetivamente, dinheiro suficiente para tudo. Governar aqui, mais que em qualquer lugar, é priorizar. Mas as proporções citadas indicam que também significa arguir: estamos no caminho certo?
O Estado brasileiro tem como meta pagar ao professor de ensino básico um salário equivalente hoje a R$ 3 mil reais num prazo de dez anos. O prazo é compatível com a essencialidade da tarefa a ele atribuída?
Arregimentará os melhores, os mais preparados, os mais eficientes para a missão?
As evidências colhidas pelo próprio governo mostram que não.
Pesquisas citadas pelo Conselho Nacional de Secretários da Educação indicam que os melhores alunos da universidade hoje fogem da carreira do magistério. Motivo: a defasagem salarial da ordem de 40% comparativamente ao início de carreira em outras profissões com diploma superior.
Um levantamento feito em 2008 pela Fundação Lemann, cotejando inscrições de vestibular e resultados alcançados no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), concluiu que os 5% com as piores notas no Enem decidiram ser professores.
Os melhores optaram por áreas médicas e de engenharia, melhor remuneradas.
Não por acaso, tem crescido no país o número de professores do ensino básico sem diploma superior. Eram 594 mil em 2007; saltaram para 636 mil em 2009.
Através da Universidade Aberta do Brasil, o governo pretende formar 330 mil deles em cinco anos. Especialistas e sindicatos questionam a qualidade da formação à distância como é o caso dos cursos oferecidos pelas UAB. Mas o balanço dos presenciais também deixa muito a desejar.
Hoje, 25% dos que abraçam o magistério estão sendo diplomados em cursos considerados ruins pelo próprio MEC.
A educação republicana, herança benigna da Revolução Francesa, é aquela que rompe a odiosa distinção de berço. Ao conceder um mesmo ponto de partida igual para todos— um ensino ‘público, gratuito e de qualidade’, como dizem os estudantes chilenos há 3 meses nas ruas por isso— secciona a transmissão da desigualdade. Impede que floresçam duas infâncias dentro de um mesmo país. Acordes da Marselhesa ao fundo. Ponto.
A ruptura da transmissão quase biológica da herança de berço – um dever da escola republicana - patina no país. Patina até na França, diga-se. Investigações baseadas no Enem indicam que a origem familiar continua a pesar decisivamente no desempenho escolar. Mais de um terço das 100 melhores notas registradas no Enem no Rio de Janeiro, por exemplo, foram obtidas por estudantes cujos pais tiveram formação superior. Em Brasília, esse número dobra: 76 de 100.
É um círculo perversamente vicioso. A baixa remuneração do professor desdobra-se em alunos com formação precária seminal que se arrastam daí em diante, da defasagem etária à desistência ou o déficit estrutural de formação. O conjunto subverte a finalidade republicana da educação, capturada assim como plataforma de reprodução da desigualdade que deveria combater.
O governo sabe disso. Deixou claro seu diagnóstico no novo Plano Nacional de Educação, o PNE. Entre 20 metas principais, ele destina 4 à valorização do professorado. Formação e remuneração, diz o documento, constitui a chave para o futuro da educação e do país.
O problema é a assimetria entre o diagnóstico e a destinação de recursos. Ela se explica pela força desproporcional dos interesses que tencionam essa relação. Para que as boas intenções do PNE sejam factíveis, o país teria que elevar o investimento em educação dos atuais 5% do PIB para 7%.
O governo concorda. Mas planeja vencer essa travessia em dez anos. Uma década, a 0,2% de acréscimo real de investimento por ano.
Trata-se de uma visão incremental muito à gosto dos mercados e de seus teóricos. Tudo se resolve gradualmente, sem a necessidade de rupturas na divisão da riqueza. Na vida real de uma nação a urgência tratada em regime de longo prazo muitas vezes é a escolha que leva ao destino oposto ao almejado.
Quanto custará socialmente esse roteiro de tartaruga resignada? Melhor: como modificar esse passo claudicante?
O Brasil dispõe hoje de uma incontrastável rede de controles financeiros e ideológicos, públicos e privados, nativos e forâneos, com braços que se articulam de dentro e de fora do governo, indo das universidades às consultorias de mercado, da prontidão midiática aos partidos políticos conservadores; esse redil articulado e eficiente trabalha sob pressão máxima para não deixar escapar um objetivo claro: garantir que anualmente se reserve algo como 3% do PIB em recursos fiscais ao pagamento de juros da dívida pública (cujo serviço efetivo atinge o dobro disso quando somados juros totais, capitalizações etc).
Assegurar o juro da dívida púbica é uma essencialidade do conservadorismo. Algo perseguido com o recrutamento dos melhores quadros, os mais contundentes instrumentos e todas as caixas de ressonância ideológica necessárias, das convictas às remuneradas. Os resultados, como se sabe, são notáveis: o Brasil é campeão mundial em custo financeiro; pratica as maiores taxas de juros do planeta e remunera religiosamente os títulos públicos com elas.
O tratamento incremental dispensado à educação , em contrapartida, sobretudo, aos salários do nível básico, reflete a aceitação de um interdito ideológico. O mesmo que faz algumas das economias mais ricas e poderosas da terra girar numa espiral descendente sem dispor de um ponto de apoio fiscal para sair da crise.
O consenso conservador instituiu nas últimas décadas que os ricos –bancos e rentistas, sobretudo— não deveriam ser taxados adequadamente em seus lucros e patrimônio em benefício da sociedade.
O dogma deixou aos Estados a opção de se tornarem mínimos em serviços e responsabilidades. Ou tomarem emprestada uma fatia da riqueza plutocrática, endividando-se a juros para proceder a investimentos e sustentar atribuições intransferíveis. Deixou-lhes também a partitura das privatizações e a do sucateamento que o Brasil dos anos 90 tocou e ouviu como aluno aplicado.
A captura do orçamento público pela lógica rentista do endividamento esgotou-se após os excessos cometidos em seus próprios termos. Entre eles a explosão do crédito sem critério, propiciado pela desregulação precedente, e das fraudes de proporções ferroviárias.
O imenso passivo acumulado regurgita agora no metabolismo econômico mundial. Um bolo de difícil digestão. Sem afrontar o dogma fiscal que impede de taxar os ricos, sobrará aos pobres mastigá-lo e serem triturados por ele durante anos.
Se for esse o caminho vitorioso aqui e alhures, o salário dos professores do ensino básico dificilmente alcançará a faixa dos três mil reais em uma década. Talvez nem em duas.
Argumentos éticos ao som da Marselhesa tocam tangencialmente o raciocínio frio de quem lucra com o fervor colegial do Tea Party. Ou dos que, em nome do ‘custo Brasil’, extinguiram a CPMF subtraindo R$ 40 bilhões por ano à saúde pública.
A esses talvez fosse mais pertinente lembrar que demonstrações explícitas de anomia social, como as registradas em Londres, não surgem do vazio.
Um estudo de Unicef, de 2007, realizado exclusivamente com países considerados desenvolvidos, oferece uma pista e um alerta de como as coisas se dão.
Intitulado "Pobreza Infantil em Perspectiva: visão de conjunto do bem-estar da criança nos países ricos", a pesquisa assume que a verdadeira medida de uma nação está na forma como ela cuida das suas crianças. A Unicef estende a fita métrica em seis dimensões da infância: a saúde e a proteção; a segurança material; a educação e socialização e o crucial modo como se sentem amadas, valorizadas e integradas na família e na sociedade onde nasceram.
O trabalho avaliou 21 países ricos abrangendo mais de 40 itens de vida material e subjetiva agrupados nas seis dimensões citadas.
A Inglaterra figurou em último lugar no conjunto de notas de cinco das seis dimensões em toda a série.
Trata-se de um balanço devastador da infância e da juventude criadas em 26 anos de governo conservador de Margareth Tatcher. Período em que se relegou a educação pública, as políticas sociais, empresas de Estado e valores associados à solidariedade e ao bem-comum a um agressivo moedor de carne de condenação ideológica e fiscal.
Valioso justamente por anteceder em cinco anos os atuais distúrbios em Londres, o trabalho pode ser consultado na íntegra no site do Centro de Estudos Innocenti da UNICEF.
Os alertas contidos no relatório merecem atenção não apenas de ingleses perplexos. Lideranças e autoridades brasileiras talvez encontrem ali boas razões para redimir sua indiferença diante da greve de abnegados professores de 11 Estados por um holerite de R$ 1.187 reais por mês.
http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=18290
quinta-feira, 28 de julho de 2011
Fim da exigência de títulos de mestrado e doutorado para ministrar aulas em instituições de ensino superior
Como se já não bastasse a autorização do MEC para o funcionamento de cursos de "porta de garagem" que se proliferam nas cidades, agora mais esse projeto de lei vem mostrar que nesse país a educação é tratada com descaso, atendendo sempre aos interesses privados em detrimento de uma educação de qualidade. Isso sim me dá vergonha e não o derrota do Brasil para o Paraguai na Copa América!
Mirtes.
Democratização ou interesses privados?
Fernando Vives
11 de julho de 2011
Oficialmente, a livre docência no ensino superior do Brasil só pode ser exercida por mestres e doutores, de acordo com a Lei de Diretrizes e Bases (LDB) vigente. No entanto, um projeto de lei do Senado, que tem Alvaro Dias (PSDB-PR) como relator, pretende dispensar a necessidade de pós-graduação em instituições superiores.
O projeto do senador tucano, de número 220/2010, foi aprovado à francesa na Comissão da Educação do Senado em junho último e deve ser discutido em sessão da Casa nas próximas semanas. Uma vez aprovado, qualquer pessoa com nível superior poderá dar aula em qualquer universidade do país.
No sistema atual, há muitos casos em que a instituição superior tem professores ainda sem mestrado dando aulas. Mas estes casos se enquadram em uma concessão do MEC (Ministério da Educação) até que a instituição se organize para ter profissionais gabaritados, com prazo definido.
A ideia dos idealizadores do projeto 222/2010 é democratizar o ensino superior, com mais gente dando aula em mais faculdades. No entanto, a possível mudança gera preocupação nos meios acadêmicos. A Federação dos Professores do Estado de São Paulo divulgou nota declarando considerar um retrocesso a mudança: “Os empresários do ensino privado, que nunca dormem no ponto, viram na proposta uma grande oportunidade para flexibilizar as regras de contratação em todos os cursos da rede privada. Para tanto, tiveram o apoio do senador Alvaro Dias, relator da proposta na Comissão de Educação. Generoso, o parlamentar manteve a possibilidade de contratar graduados, suprimiu a ‘relevante experiência profissional’ e ainda estendeu a flexibilização para todos os cursos”.
O professor José Roberto Castilho Piqueira, da Escola Politécnica da USP, é incisivamente contrário à proposta do senador tucano. “Muitas vezes algumas universidades particulares mandam o professor embora quando ele faz o mestrado ou o doutorado, porque tem que pagar salários maiores para ele. O espírito desta emenda, na minha opinião, é o ‘tá liberado’. Posso contratar qualquer pessoa com qualquer nível de graduação, mesmo com formação parca, para aumentar meus lucros”, afirma.
Castilho Piqueira também enxerga a possível mudança como anti-democrática. “Existe uma demanda muito forte para os cursos de Engenharia e Tecnologia para as próximas décadas no Brasil. O Estado investe muito dinheiro na qualificação de profissionais através do Capes, Faperj, Unifesp e outras. E, no entanto, quando você permite essa mudança, faz com que os mestres e doutores formados com dinheiro público não devolvam esse conhecimento à sociedade. É um desperdício. Os que querem a mudança vestem uma fantasia de liberais e nos pintam como autoritários, como quem diz que esses caras acham que só título que interessa e nós sabemos reconhecer o trabalho prático. Na prática, isso é balela”, complementa Piqueira.
Já existe uma petição online para pressionar o Senado a votar contra a o projeto de lei 222/10.
http://www.cartacapital.com.br/carta-na-escola/democratizacao-ou-interesses-privados
segunda-feira, 11 de julho de 2011
Polêmica sobre o uso de coleiras em crianças
Adereço novo, questão antiga
Uso de coleira em crianças evoca discussão sobre os limites da autonomia e do controle na educação familiar; usuários apostam no artefato pela segurança
Fabiana Macedo – Revista Educação – Edição 171
De um lado, a fita resistente presa a um peitoral. A outra ponta fica nas mãos de um adulto, que puxa o encoleirado por uma praça. A cena seria considerada corriqueira, caso o utensílio estivesse sendo empregado para o controle de um animal doméstico e não de uma criança. Usada há décadas em países como EUA e Japão, a coleira chegou ao Brasil há cerca de dois anos e é motivo de polêmica entre pais e educadores. De um lado estão os adeptos da ideia, que evocam a segurança, a praticidade e a liberdade controlada. Do outro, aqueles que abominam a iniciativa, e fazem críticas diretas aos adultos que passeiam com seus filhos encoleirados.
É importante lembrar que coleira não é mais a mesma: evoluiu do modelo usado anteriormente, preso ao pescoço e ao pulso das crianças, para um jeitão de brinquedo, na forma de mochilas e bichos de pelúcia que são atados ao tronco dos filhos. Mas, mesmo com visual lúdico e renovado, ela é capaz de chocar, pois evoca, de um lado, controle absoluto e, de outro, submissão à força, valores que não desfrutam de boa reputação entre educadores e psicólogos. Para eles, é como se a controvertida coleira fosse uma espécie de apoio, uma muleta para o adulto que não assume a responsabilidade de conduzir a criança, por insegurança, medo da responsabilidade ou simplesmente preguiça. "Trata-se de uma facilidade para os pais e não para os filhos. Não vejo nada de positivo nisso", dispara a psicóloga e educadora Rosely Sayão.
Nesses termos, o que entra em discussão é a falta de preparo da família para lidar com a esperteza, lucidez e agilidade dos filhos, que têm sede de informação e de experimentação das coisas que surgem ao seu redor. E inibir este ímpeto, segundo os especialistas, ainda mais de forma brusca, puxando o menor por uma fita, é podar uma oportunidade de desenvolvimento ou tirar de quem está conhecendo o mundo a oportunidade de aprender com seus próprios erros. Na visão de alguns educadores, o uso da coleira faz com que a criança deixe de experimentar e aprender com as consequências de suas ações e de seus movimentos. Ausência que pode ser problemática no futuro: como elas enfrentarão o mundo real quando adultas?
Os adeptos
Entre aqueles que não enxergam problemas com a coleira está Ana Merzel, coordenadora de psicologia do Hospital Israelita Albert Einstein. Para ela, a guia pode ser comparada a um andador, recurso recomendado antigamente para antecipar os primeiros passos das crianças. Ela afirma não ser contra o uso do acessório. "Todos recomendavam o andador e depois descobriram que não era bom. Agora é a vez da coleirinha. Em qualquer situação é preciso avaliar o uso, ter bom senso e respeitar a opinião da criança, que tem de entender a função do acessório", explica.
Para os usuários, o artefato se configura como um meio de proteção eficiente. "Eu uso e recomendo", diz Cristiane Paulon, mãe de Sofia, 18 meses de idade, que afirma ter nos sequestros em shoppings, atropelamentos e outros acidentes com crianças uma motivação para adotar a coleira esporadicamente nos passeiosem família. Segundo ela, a filha adora correr e odeia ficar com as mãos dadas, por isso atá-la à mochila de sapinho em lugares cheios foi a solução encontrada. "Ela se sente à vontade e eu fico despreocupada", defende.
"Se a criança corre, é porque está sem um adulto para contê-la", opina Roseli Sayão. Para a psicóloga, os pais não devem limitar os movimentos da criança, mas acompanhar os passos dos filhos para entender as dúvidas e encantamentos da criança, fazendo prevalecer a autoridade do adulto quando necessário. Com essa atitude, o pai pode criar explicações didáticas sobre as consequências de ações indesejáveis ou arriscadas. Poderá explicar, por exemplo, o motivo de pedir que a criança não corra sozinha ou coloque as mãos em uma vitrine, derrube produtos nas lojas, mexa no lixo, bata nos vidros, entre outras ações que podem ser perigosas ou incômodas a ela e às outras pessoasem volta.
Renata Waksman , secretária do Departamento de Segurança da Criança e do Adolescente da Sociedade Brasileira de Pediatria, vai além e qualifica o argumento da segurança usado pelos pais como uma "ilusão". "É uma falsa sensação de segurança", argumenta. Segundo ela, as crianças pequenas se sentem presas, podem cair e se machucar com a guia. Em vez de optar pela coleira, os pais poderiam escolher locais seguros e adequados para levar os filhos. Se houver aglomeração, talvez o lugar não seja adequado para os pequenos. "Se for necessário ir a um local com muita gente, a melhor opção são os carrinhos dobráveis", complementa a secretária. "São fáceis de carregar, têm cinto de segurança e são muito mais confortáveis para as crianças."
Impactos no futuro
Outro ponto importante levantado pelos especialistas diz respeito à insegurança causada pelo uso frequente da coleira, já que as crianças podem associar o desenvolvimento de determinadas tarefas ao fato de estarem presas a um adulto. Mas há quem garanta que a experiência não gera nenhum tipo de dano psicológico. "Eu usei e vou colocar nos meus filhos", afirma a jornalista Marina Valle, que não sofreu nenhum trauma por ter usado a coleira. "Muito pelo contrário: eu me sentia protegida, principalmente em locais com muita gente desconhecida em volta", reforça. Mesmo apoiando uso do acessório, a jornalista contou uma cena significativa para quem acredita que a coleira é um recurso inaceitável: "uma família entrou na locadora e a mãe tinha uma coleira no filho, que não parava de gritar e mexer nas coisas, e ao lado o cachorro andava solto e obedecia a todos os comandos da dona". Uma inversão de papéis que justifica discussões mais amplas e complexas, que tratem dos limites da educação e das regras de convivência social.
Para Roseli Caldas, coordenadora da Representação Paulista da Associação Brasileira de Psicologia Escolar e Educacional, a situação descrita remete à ideia de autonomia dos filhos, que é tão almejada pelos pais. Para alcançá-la, diz a coordenadora, as regras devem ser discutidas, contestadas e, então, assimiladas, de modo que não seja mais necessário o controle externo - muito menos o físico. Nesse processo educacional, estão presentes a argumentação, bem como a importância de que, às vezes, mesmo sem compreender totalmente, a criança atenda à voz de comando dos que a educam como recurso de proteção. "Nesse sentido, precisar de uma coleirinha para que a criança respeite o limite parece ser bastante questionável", comenta.
Limites e possibilidades
A questão da coleira infantil também traz à tona a hora de indicar os limites e possibilidades de aprendizado para as crianças. Trata-se de um desafio diário a ser buscado nas oportunidades que surgem da convivência com eles. "Isso não pode ser desperdiçado pela praticidade do uso de uma coleira, que prescinde do diálogo humano", teoriza Roseli Caldas. "Se o espaço para conversa e elaboração dos limites não tiver sido construído e solidificado durante a infância, não haverá coleira que possa conter essas crianças no futuro."
Diálogo foi justamente o que a advogada Paola Otero Russo usou com a filha Carolina, de quatro anos, para convencê-la a não correr para a rua no retorno da escola quando estava sob os cuidados da babá. Expansiva, Carolina é o tipo de criança que conversa com estranhos e parece não ter medo de nada. "Ela se expõe demais", avalia a mãe. Para conter a filha, Paola explicou os perigos aos quais se expunha com este comportamento e sugeriu o uso da coleira no retorno da aula. A resposta da menina demonstrou incômodo: "É como coleira de cachorro? Não quero usar. Tenho vergonha". Diante da recusa, Paola, que apoia o uso do acessório e já colocou em sua filha em outras ocasiões, recorreu à conversa e resolveu a questão.
Paola fez o certo, segundo os especialistas. Se os pais decidem usar a coleirinha, devem explicar abertamente isso para os filhos. Mesmo que o recurso seja adotado com boa intenção, é preciso levar em conta que a coleira tem um impacto visual negativo, já que é associada aos animais, e isso pode causar reações ruins. "É importante esclarecer por que optaram pelo uso", pondera Roseli. Em sua pesquisa sobre o assunto, a professora de psicologia ressalta que a coleira pode até aparecer como vilã, mas atua, na verdade, como um termômetro dos relacionamentos no mundo contemporâneo. Ela explica que as relações atuais se dão por meio de "objetos concretos e virtuais", em que seres humanos são conectados uns aos outros pela mediação de coisas. "Se a coleira substitui o diálogo, o impacto é negativo. Na medida em que se usa a conversa com a criança, cria-se uma humanização", finaliza.
É importante lembrar que coleira não é mais a mesma: evoluiu do modelo usado anteriormente, preso ao pescoço e ao pulso das crianças, para um jeitão de brinquedo, na forma de mochilas e bichos de pelúcia que são atados ao tronco dos filhos. Mas, mesmo com visual lúdico e renovado, ela é capaz de chocar, pois evoca, de um lado, controle absoluto e, de outro, submissão à força, valores que não desfrutam de boa reputação entre educadores e psicólogos. Para eles, é como se a controvertida coleira fosse uma espécie de apoio, uma muleta para o adulto que não assume a responsabilidade de conduzir a criança, por insegurança, medo da responsabilidade ou simplesmente preguiça. "Trata-se de uma facilidade para os pais e não para os filhos. Não vejo nada de positivo nisso", dispara a psicóloga e educadora Rosely Sayão.
Nesses termos, o que entra em discussão é a falta de preparo da família para lidar com a esperteza, lucidez e agilidade dos filhos, que têm sede de informação e de experimentação das coisas que surgem ao seu redor. E inibir este ímpeto, segundo os especialistas, ainda mais de forma brusca, puxando o menor por uma fita, é podar uma oportunidade de desenvolvimento ou tirar de quem está conhecendo o mundo a oportunidade de aprender com seus próprios erros. Na visão de alguns educadores, o uso da coleira faz com que a criança deixe de experimentar e aprender com as consequências de suas ações e de seus movimentos. Ausência que pode ser problemática no futuro: como elas enfrentarão o mundo real quando adultas?
Os adeptos
Entre aqueles que não enxergam problemas com a coleira está Ana Merzel, coordenadora de psicologia do Hospital Israelita Albert Einstein. Para ela, a guia pode ser comparada a um andador, recurso recomendado antigamente para antecipar os primeiros passos das crianças. Ela afirma não ser contra o uso do acessório. "Todos recomendavam o andador e depois descobriram que não era bom. Agora é a vez da coleirinha. Em qualquer situação é preciso avaliar o uso, ter bom senso e respeitar a opinião da criança, que tem de entender a função do acessório", explica.
Para os usuários, o artefato se configura como um meio de proteção eficiente. "Eu uso e recomendo", diz Cristiane Paulon, mãe de Sofia, 18 meses de idade, que afirma ter nos sequestros em shoppings, atropelamentos e outros acidentes com crianças uma motivação para adotar a coleira esporadicamente nos passeios
"Se a criança corre, é porque está sem um adulto para contê-la", opina Roseli Sayão. Para a psicóloga, os pais não devem limitar os movimentos da criança, mas acompanhar os passos dos filhos para entender as dúvidas e encantamentos da criança, fazendo prevalecer a autoridade do adulto quando necessário. Com essa atitude, o pai pode criar explicações didáticas sobre as consequências de ações indesejáveis ou arriscadas. Poderá explicar, por exemplo, o motivo de pedir que a criança não corra sozinha ou coloque as mãos em uma vitrine, derrube produtos nas lojas, mexa no lixo, bata nos vidros, entre outras ações que podem ser perigosas ou incômodas a ela e às outras pessoas
Renata Waksman
Impactos no futuro
Outro ponto importante levantado pelos especialistas diz respeito à insegurança causada pelo uso frequente da coleira, já que as crianças podem associar o desenvolvimento de determinadas tarefas ao fato de estarem presas a um adulto. Mas há quem garanta que a experiência não gera nenhum tipo de dano psicológico. "Eu usei e vou colocar nos meus filhos", afirma a jornalista Marina Valle, que não sofreu nenhum trauma por ter usado a coleira. "Muito pelo contrário: eu me sentia protegida, principalmente em locais com muita gente desconhecida em volta", reforça. Mesmo apoiando uso do acessório, a jornalista contou uma cena significativa para quem acredita que a coleira é um recurso inaceitável: "uma família entrou na locadora e a mãe tinha uma coleira no filho, que não parava de gritar e mexer nas coisas, e ao lado o cachorro andava solto e obedecia a todos os comandos da dona". Uma inversão de papéis que justifica discussões mais amplas e complexas, que tratem dos limites da educação e das regras de convivência social.
Para Roseli Caldas, coordenadora da Representação Paulista da Associação Brasileira de Psicologia Escolar e Educacional, a situação descrita remete à ideia de autonomia dos filhos, que é tão almejada pelos pais. Para alcançá-la, diz a coordenadora, as regras devem ser discutidas, contestadas e, então, assimiladas, de modo que não seja mais necessário o controle externo - muito menos o físico. Nesse processo educacional, estão presentes a argumentação, bem como a importância de que, às vezes, mesmo sem compreender totalmente, a criança atenda à voz de comando dos que a educam como recurso de proteção. "Nesse sentido, precisar de uma coleirinha para que a criança respeite o limite parece ser bastante questionável", comenta.
Limites e possibilidades
A questão da coleira infantil também traz à tona a hora de indicar os limites e possibilidades de aprendizado para as crianças. Trata-se de um desafio diário a ser buscado nas oportunidades que surgem da convivência com eles. "Isso não pode ser desperdiçado pela praticidade do uso de uma coleira, que prescinde do diálogo humano", teoriza Roseli Caldas. "Se o espaço para conversa e elaboração dos limites não tiver sido construído e solidificado durante a infância, não haverá coleira que possa conter essas crianças no futuro."
Diálogo foi justamente o que a advogada Paola Otero Russo usou com a filha Carolina, de quatro anos, para convencê-la a não correr para a rua no retorno da escola quando estava sob os cuidados da babá. Expansiva, Carolina é o tipo de criança que conversa com estranhos e parece não ter medo de nada. "Ela se expõe demais", avalia a mãe. Para conter a filha, Paola explicou os perigos aos quais se expunha com este comportamento e sugeriu o uso da coleira no retorno da aula. A resposta da menina demonstrou incômodo: "É como coleira de cachorro? Não quero usar. Tenho vergonha". Diante da recusa, Paola, que apoia o uso do acessório e já colocou em sua filha em outras ocasiões, recorreu à conversa e resolveu a questão.
Paola fez o certo, segundo os especialistas. Se os pais decidem usar a coleirinha, devem explicar abertamente isso para os filhos. Mesmo que o recurso seja adotado com boa intenção, é preciso levar em conta que a coleira tem um impacto visual negativo, já que é associada aos animais, e isso pode causar reações ruins. "É importante esclarecer por que optaram pelo uso", pondera Roseli. Em sua pesquisa sobre o assunto, a professora de psicologia ressalta que a coleira pode até aparecer como vilã, mas atua, na verdade, como um termômetro dos relacionamentos no mundo contemporâneo. Ela explica que as relações atuais se dão por meio de "objetos concretos e virtuais", em que seres humanos são conectados uns aos outros pela mediação de coisas. "Se a coleira substitui o diálogo, o impacto é negativo. Na medida em que se usa a conversa com a criança, cria-se uma humanização", finaliza.
Fonte: http://revistaeducacao.uol.com.br/textos.asp?codigo=13160
Professora Amanda Gurgel se recusa a receber prêmio
Redação Carta Capital
A professora Amanda Gurgel, que ficou conhecida após fazer um discurso na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte a respeito da situação da educação no Estado – que resultou num vídeo acessado por mais de um milhão de internautas no YouTube – recusou, no sábado 2, receber um prêmio oferecido em sua homenagem pela associação Pensamento Nacional de Bases Empresariais.
A organização havia dedicado a ela o prêmio 2011 na categoria “educador de valor”. Em sua justificativa, a professora destacou que, “embora exista desde 1994, esta é a primeira vez que esse prêmio é destinado a uma professora”.
“Esse mesmo prêmio foi antes de mim destinado à Fundação Bradesco, à Fundação Victor Civita (editora Abril), ao Canal Futura (mantido pela Rede Globo) e a empresários da educação. Em categorias diferentes também foram agraciadas com ele corporações como Banco Itaú, Embraer, Natura Cosméticos, McDonald’s, Brasil Telecon e Casas Bahia, bem como a políticos tradicionais como Fernando Henrique Cardoso, Pedro Simon, Gabriel Chalita e Marina Silva. A minha luta é muito diferente dessas instituições, empresas e personalidades”, justificou.
Amanda Gurgel, que em seu discurso na Assembleia se queixou do salário que recebe como professora e da situação do sistema de ensino no País, disse que seus projetos são “diametralmente diferentes daqueles que norteiam o PNBE”, grupo mantido por empresários paulistas e, segundo ela, comprometida apenas com “a economia de mercado”, “à mercantilização do ensino e ao modelo empreendedorista”.
Entre as reivindicações da professora, manifestadas em seu site pessoal, estão a valorização do trabalho docente e a elevação para 10% da destinação do Produto Interno Bruto para a educação.
“Não quero que nenhum centavo seja dirigido para organizações que se autodenominam amigas ou parceiras da escola, mas que encaram estas apenas como uma oportunidade de marketing ou, simplesmente, de negócios e desoneração fiscal”, escreveu ela, antes de dizer que não poderia aceitar o prêmio.
Fonte: http://www.cartacapital.com.br/carta-na-escola/professora-amanda-gurgel-se-recusa-a-receber-premio-de-empresarios-em-sp
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