sábado, 9 de abril de 2011

Entrevista: Peter Moss - "sobrevivência humana depende da educação"

Para pesquisador britânico, sobrevivência humana depende da educação

Publicado em 09/04/2011

São Paulo - O pesquisador britânico Peter Moss entende que a escola precisa tratar de temas relacionados à sustentabilidade. Em visita à capital paulista na quarta-feira (6), ele discutiu desafios colocados para a educação, incluindo a necessidade de se promover valores democráticos na formação da criança.
"Na escola, as pessoas podem aprender o lado formal, sobre como tomar a decisão do voto, mas também podem aprender a viver de um modo democrático", explica. "Quero ressaltar que isso é uma possibilidade. Precisamos decidir o que queremos de nossas escolas. Se não quisermos isso, não seremos democráticos", alerta.
Peter Moss é historiador de formação e professor da Universidade de Londres. Estuda questões relacionadas à primeira infância, embora ressalte que prefere pensar a educação de forma integrada. As formas de se incluir práticas democráticas na escola são seus principais pontos de pesquisa.
Ele acredita que, diante de desafios ambientais colocados, como o aquecimento global, é preciso buscar formas melhores de se viver. "Estamos diante de uma situação em que, se não tomarmos os cuidados necessários, podemos ser extintos ou impingir sérios danos a nós mesmos", alerta.
Moss esteve em São Paulo para participar de um seminário sobre educação na primeira infância, a convite da Campanha Latinoamericana pelo Direito à Educação (Clade).

Confira a entrevista concedida a jornalistas a qual a Rede Brasil Atual acompanhou.

Como o sr. definiria a primeira infância?
Peter Moss – Em geral, as pessoas falam de zero a seis anos como sendo a primeira infância. Algumas vezes, de três a seis. E de educação primária e secundária a partir daí. Prefiro enfatizar a educação como um todo, pensando em valores comuns e objetivos e formas de trabalho que podem ser trabalhados e aplicados a várias idades diferentes, desde os primeiros anos até 18 ou 19 anos. Precisamos pensar na educação como um todo e não apenas de forma compartimentada.

A ideia de sustentabilidade tem espaço na escola?
Peter Moss – É uma questão central. Ao nos perguntarmos qual é a função da educação, minha resposta atualmente é que precisamos de uma educação para a sobrevivência. Estamos em uma posição perigosa enquanto espécie humana. Estamos diante de uma situação em que, se não tomarmos os cuidados necessários, podemos ser extintos ou impingir sérios danos a nós mesmos. Um ponto central atualmente para um projeto educacional é tratar a questão da sustentabilidade e encontrar formas melhores de viver sem provocar tantos danos ao ambiente e a nós mesmos.

Qual é o papel da escola na formação das crianças?
Peter Moss – A criança, em seu crescimento, passa por um processo de construção de conhecimentos e identidades – e uso o plural, porque temos várias identidades mesmo. A escola é um dos lugares, incluindo a pré-escola, para se construir conhecimentos, identidades e valores. Elas precisam de professores adultos para isso. Éuma arena importante, embora não seja a única, para que criem suas próprias identidades.

Como a escola pode trabalhar para formar valores democráticos nas crianças?
Peter Moss – É um espaço em que podemos aprender a viver em relações democraticas. A democracia tem várias dimensões. Por exemplo, quando vamos às urnas e votamos nos membros do Congresso, exercemos uma dimensão. Mas nossa vida cotidiana pode ser baseada na democracia, em uma forma de ser aberto a outras pessoas, ficar atento a outras perspectivas e à negociação. É um conceito bem amplo. Na escola, as pessoas podem aprender o lado formal, sobre como tomar essas grandes decisões do voto, mas também podem aprender a viver de um modo democrático. Quero ressaltar que isso é uma possibilidade. Precisamos decidir o que queremos de nossas escolas. Se não quisermos isso, não seremos democráticos.

Quando o sr. diz "nós queremos", o sr. refere-se à sociedade, à comunidade?
Peter Moss – Estou falando de nós cidadãos individuais que vivem em comunidade, como pessoas que têm de assumir responsabilidade pela educação. Com o neoliberalismo, tende-se a falar de escolas com pais e crianças envolvidos apenas como consumidores. No entanto, parece-me – e isso não é uma opinião original – a educação é uma responsabilidade e diz respeito a todos. Todos somos afetados por suas consequências e todos somos responsáveis pelas crianças. Sou pai e particularmente responsável por meus filhos, mas também preciso me interessar por outras crianças. Em última análise, podemos pensar que, quando eu for velho, o filho de outra pessoa vai assistir-me como enfermeiro ou cuidador. Preciso ter interesse na educação dos filhos de todos, tanto quando dos meus. Isso vale para mim e para todos nós. Não é uma questão de pais comprando serviços de empresas voltadas para o negócio. Essa seria uma perspectiva perigosa.

O sr. critica a educação tratada como mercadoria, como um serviço. Como mudar essa perspectiva para promover outros valores e prioridades?
Peter Moss – Como promover a transformação é uma pergunta difícil e poderíamos passar o restante da noite conversando a respeito. Como trazer a mudança? Não acontece de uma hora para a outra. Em parte, envolve eventos como este, em que há uma arena para discutir abertamente essas questões. Há uma grande responsabilidade nos representantes eleitos democraticamente, que podem abrir a política educacional.
E o mundo mudou. Há 30 anos, as discussões eram muito diferentes. Como estamos vendo essa situação na educação, tendemos a achar que vai ser sempre assim. Sou um historiador de formação e sei que não acontece assim. Mudam as pessoas, o mundo, o tempo e as circunstâncias. Milton Friedman, um intelectual do neoliberalismo, disse que o que ele fez por muitos anos foi apenas falar sobre o tema até que o momento fosse propício para essas ideias. Às vezes, é assim que essas coisas acontecem, mantém-se as ideias fluindo e o mundo se move.

Qual é o papel da famílias na formação das crianças?
Peter Moss – Os pais são muito importantes. Acredito que todo pai já saiba que é muito importante para a criança. Mas tem sido colocado com frequência um falso dilema sobre se as crianças deveriam ficar com as famílias ou na pré-escola. Para mim, é uma distinção completamente falsa. Uma boa infância precisa ter uma boa qualidade de convivência com a família, mas também que as crianças possam estar com outras pessoas durante uma parte do tempo. Isso depende da qualidade dessas creches ou que quer que seja a pré-escola, mas também há famílias com problemas terríveis. Em países como Suíça ou Dinamarca, em que há uma qualidade grande assegurada nas creches, o que se considera uma boa infância inclui cinco ou seis horas das crianças em uma pré-escola. É uma nova forma de entender o que significa crescer. E supera-se essa discussão inútil entre casa versus creches. Mesmo que as famílias sejam importantes e pré-escolas também. Precisamos ter o melhor dos dois. As crianças se adaptam e precisam aprender a se adaptar a diferentes ambientes.

Muitos pais atualmente têm dificuldades de tempo para dedicar à educação dos filhos.
Peter Moss – A questão do tempo é uma das maiores que precisamos enfrentar atualmente. Temos muito pouco tempo para as coisas importantes da vida e precisamos dedicar mais tempo para pensar em questões como a educação. Mas curiosamente, não tenho tempo para discutir isso agora (risos).


Teste Vocacional

Queridos alunos e estudantes em dúvida sobre o que fazer após o Ensino Médio,
encontrei no site da Abril a "máquina das profissões".
É bem legal, eu respondi as 60 perguntas e deu certo! Eles mostram o seu perfil profissional e quais profissões se encaixam nesse perfil.
Façam e depois me contem!
Mirtes

http://testevocacional.guiadoestudante.abril.com.br/

quinta-feira, 7 de abril de 2011

O Brasil em luto

Ontem estava pensando em qual seria o post de hoje: politicas públicas, vestibulares, desvalorização do magistério, enfim, mil ideias se passavam na minha cabeça. Mas uma tragédia mudou meus planos. 
Sabemos que o que ocorreu na escola do Rio de Janeiro poderia acontecer em qualquer parte do mundo, aliás como já aconteceu em outros países (quem não se lembra de Columbine?). Mas, quando acontece tão perto de nós, quando vemos nossas crianças senso alvo de um maluco, o sentimento de dor é muito grande. 
Vivemos num mundo violento, nossas cidades são violentas, muitas de nossas crianças convivem em lares violentos e, são as crianças  as maiores vítimas da violência doméstica no Brasil. Atos execráveis!
E hoje a violência nua e crua invadiu os muros da escola.
O Brasil  ficou chocado diante do massacre de crianças dentro de uma escola no Rio. É impossível ficar alheio a isso, afinal, a escola é o espaço de construção da paz, é o local onde se deve vivenciar um clima de harmonia, de respeito ao próximo , de construção de um mundo melhor, ou seja, a escola deveria ser sempre o local onde "cuidamos" da alma do nosso país. Nossas crianças merecem isso! Por isso a violência de hoje é tão chocante. O assassino feriu nossa alma. 
Concluindo, a escola, apesar de todos os problemas que enfrenta , é o local onde os pais depositam aquilo que tem de mais precioso, os seus filhos, na certeza e esperança que ali receberão um tratamento digno, que aprenderão coisas novas e serão crianças plenas desenvolvendo suas habilidades.O massacre de hoje nos faz pensar em que caminhos segue a humanidade, em como podemos continuar acreditando num mundo melhor se nossas crianças são brutalmente arrancadas da vida dentro de uma escola?
Chorei. Ainda choro pelas crianças mortas, pelos familiares, pelas crianças que sobreviveram e vivenciaram cenas de tamanha brutalidade. Choro por nós e me compadeço pelos pais dessas crianças.
Mirtes.



                                              

sábado, 2 de abril de 2011

A farsa da nova proposta de "inclusão" da USP

 
O texto abaixo analisa criticamente a tão propagada nova proposta de inclusão da USP. Basta não cairmos no falso otimismo da mídia burguesa para percebermos a falácia desse projeto. Lamentemos!
Mirtes.



Critérios para concorrer a bônus na USP pioraram

Mudanças no programa de inclusão dão a falsa impressão de que alunos receberão empurrão para se empenharem no ensino médio

Mateus Prado - Educador analisa o Enem, os vestibulares e o ensino brasileiro - IG Educação


Na capa dos jornais, nos links dos sites, nas chamadas das rádios e nas manchetes da TV, a notícia realmente parece muito boa. Fora raras exceções, os títulos da imprensa dão a impressão de que a USP passará a ser inclusiva e que seu programa para alunos oriundos de escolas públicas vai oferecer, fartamente, um super empurrão para alunos carentes que se empenharem em seus estudos no ensino médio.
Isso não é verdade. Os 15% de bônus anunciados pela universidade são o teto que um aluno pode atingir. Dificilmente alguém chegará a perceber esse abono em sua nota. A grande maioria dos alunos de escolas públicas, mesmo os mais dedicados, não consegue resolver metade da prova da Fuvest. Para que fique claro, resolver metade da prova da Fuvest é uma tarefa extremamente difícil, principalmente após as alterações inseridas nos últimos anos.

(...)

Os critérios para concorrer ao bônus conseguem ser piores que os anteriores. Quem estiver no segundo ano do ensino médio e fizer o vestibular nesse período poderá concorrer a até 5% de acréscimo na nota. É demais esperar que alunos com cerca de 16 anos, de escolas públicas, irão fazer, já no segundo ano, uma prova de uma instituição que acham que nunca terão acesso. Mesmo que queiram, vale lembrar que a Fuvest só aplica a prova em 22 cidades de São Paulo, apesar de o Estado ter 75 cidades com mais de 100 mil habitantes. No total, são 645 cidades, e mais de 600 sem aplicação da prova da Fuvest.

O resultado é que serão poucos os estudantes de escolas públicas de São Paulo que farão a Fuvest um ano antes de terminar o ensino médio. E, quem fizer, pode ter uma experiência que assuste e faça com que não queira mais ver a prova. No vestibular de 2010, que mostrou claramente que a Fuvest está muito mais difícil agora do que sempre foi, quase metade das carreiras tiveram nota de corte igual ou inferior a 36 pontos, que é o equivalente a acertar 40% ou menos das questões. Imagine um aluno do segundo ano, de escola pública, fazendo uma prova em que até boa parte dos alunos que conseguem chegar à segunda fase tiram nota inferior a 4. Será mesmo que ele irá encarar, de novo, a prova no outro ano?
(...)

Se a instituição quer incluir, de fato, e parar de jogar para a plateia, deve fazer duas coisas. A primeira é aumentar o número de vagas  (...)

A segunda necessidade, extremamente urgente, é implantar cotas para alunos oriundos de escolas públicas. No último vestibular, somente 25% dos alunos aprovados vieram da rede pública. E isso é uma média, porque em medicina e direito, por exemplo, quem é negro, pobre e de escola pública, em geral, não sabe nem onde ficam as respectivas unidades. A implantação de cotas não fere em nada a tão propagada meritocracia, cantada em verso e prosa pela reitoria. Cota não universalizaria o acesso à USP, opção tratada com ojeriza pela direção. Só daria acesso aos alunos de escolas públicas que mais acertam questões nos vestibulares, do jeitinho que o reitor gosta. E todas as pesquisas mostram, claramente, que os alunos aprovados por cota tendem a ter aproveitamento igual ou melhor que os não-cotistas em sua passagem pela universidade.


 Para ler artigo na íntegra clique aqui.

Novidades no vestibular da Fuvest 2012

No final de Março foram anunciadas algumas novidades no vestibular da USP .
Há uma proposta de ampliar para 15% o bônus para alunos oriundos de escolas públicas. Para isso há algumas regras (leia abaixo). Mas, ao mesmo tempo em que anuncia esse projeto de inclusão, anuncia também que deverá aumentar a nota de corte para os cursos,ou seja, a prova vai ficar mais difícil !
Lógica disso? Para muitos é o continuísmo da elitização da USP, pois os maiores prejudicados seriam justamente os alunos das escolas públicas...
Bom, como o aumento na nota de corte ainda não foi aprovado, esperamos que essa ideia seja repensada e que realmente o programa  INCLUSP (inclusão de alunos da rede pública) seja cada vez mais eficaz em seu propósito.
Mirtes.


Para ter mais pontos na Fuvest, aluno da rede pública terá de prestar vestibular pelo menos duas vezes


 
Publicado em 31/03/2011
Por: Redação da Rede Brasil Atual  


São Paulo – A Universidade de São Paulo (USP) definiu na tarde desta quinta-feira (31) novas regras para o vestibular da Fundação Universitária para o Vestibular (Fuvest) e para o programa de inclusão de alunos da rede pública (Inclusp). A partir do próximo ano, o bônus para alunos oriundos de escolas públicas no vestibular da USP pode chegar até 15%, mas os estudantes terão de prestar vestibular desde o segundo ano e estarem inscritos no Programa de Avaliação Seriada da USP (Pasusp).
A decisão foi tomada pelo Conselho de graduação da universidade que analisa propostas de modificações no vestibular. Até o último vestibular, os alunos conseguiam 3% de bônus somente por terem frequentado escola pública no ensino médio, sem estarem obrigatoriamente inscritos no Pasusp. O acréscimo poderia chegar a 12%, no total, de acordo com o resultado de avaliação.
A partir de 2011, o acréscimo de 15% na nota vai depender de inscrição no Pasusp já no segundo ano do ensino médio. Na prática, os estudantes terão de fazer o vestibular como treineiros. Se o candidato acertar 45 questões das 90 da primeira fase do exame, ganhará o teto de 5% de bônus, dependendo do número de acertos. Outros 10% podem ser adquiridos se o aluno acertar 60 questões quando estiver no terceiro ano.
Estudantes que não se isncreveram para o Pasusp, ou saíram da escola sem participação no programa, mas estudaram em escola pública poderão obter 8% de bônus se acertarem 60 questões ou mais das 90 da prova.
O Conselho de Graduação da USP deve decidir, em nova reunião, outras mudanças em seu vestibular para dificultar o acesso à universidade. Uma das medidas seria a elevação da nota mínima na primeira fase da Fuvest.
Para o diretor de um dos cursinhos populares preparatórios para o vestibular da USP, Gilberto Giusepone Junior, do Cursinho da Poli, o aumento das notas de corte no vestibular fazem parte da conduta elitista da universidade e deve prejudicar principalmente os alunos oriundos de escolas públicas. O corte de vagas na USP Leste caminha no mesmo sentido, na visão do educador.
“Conhecendo o espírito conservador da USP, essa é uma tentativa de ser elitista, selecionar pela nota do vestibular e não democratizar acesso”, diz.

O mito da escola privada - Final - Gustavo Fischman

Término da entrevista de Gustavo Fischman, concedida à Solange Azevedo e publicada na revista Época de 16/08/2004, edição 326.


Parte I postada em 23/03.

Parte II postada em 26/03





ÉPOCA - A violência crescente também não compromete o ensino nas áreas mais pobres?
Fischman -
Na maior parte do mundo, as escolas são o local mais seguro para as crianças e os adolescentes estarem. São muito melhores que a rua e, em muitos casos, mais que as próprias casas dos alunos. As escolas americanas aparecem na mídia como se fossem lugares muito violentos. É sempre lembrado o caso da escola em Columbine, onde 13 alunos e professores foram mortos por dois estudantes armados com rifles em 1999. Mas os números evidenciam que a violência nas escolas públicas dos EUA caiu nos últimos dez anos.

ÉPOCA - O que é uma escola moderna?
Fischman -
As escolas não são autônomas das sociedades. São tão criativas como as prioridades que as sociedades lhes atribuem. As escolas, os hospitais e as cadeias são três instituições criadas mais ou menos no mesmo período histórico, há 150 anos. Se formos comparar como evoluíram, veremos que, no passado, os médicos trabalhavam de modo mais individual. Hoje as tarefas são planejadas e executadas por grupos. Há incorporação da tecnologia e trabalho de prevenção. O mesmo aconteceu nas cadeias, com equipes multidisciplinares para lidar com os presos e cada vez mais tecnologia e trabalho de grupo. Mas as escolas do passado são muito parecidas com as de hoje. São espaços fechados, com um professor, 30 a 50 alunos e um quadro-negro. A grande revolução tecnológica de muitas delas parece ser comprar uma televisão e um computador.

ÉPOCA - O aluno que vive no campo tem de aprender o mesmo que o de uma cidade grande?
Fischman -
A função política e social de uma escola tem de ser a mesma. Não dá para pensar que alunos de áreas campesinas só têm de aprender coisas do campo. Mas, no que diz respeito à formação para o trabalho, a escola tem de se adaptar. Deve oferecer alternativas diferentes de acordo com as possibilidades de cada local, procurando muita flexibilidade e não restringindo as opções dos estudantes. Isso não tem de ser feito cedo, no ensino fundamental. Hoje é muito difícil dizer o que vai ser viável daqui a dez anos. Na prática, as pessoas vão aprender o que a sociedade naquele momento decidir que é importante. Em Buenos Aires, há um cibercafé a cada dois quarteirões. O custo é baixo, equivalente a R$ 1 por hora. Isso dá sinais de que a computação e as tecnologias da informação são importantes.

ÉPOCA - Como a crise econômica afetou a educação na Argentina, tida como uma das melhores do continente?
Fischman -
Hoje, a escola pública argentina tem função claramente assistencialista. Pode-se dizer que 50% da população é pobre. Isso quer dizer que muitas crianças têm dificuldade de acesso até à comida e à saúde. Para que elas permaneçam na escola, é preciso suprir essas necessidades. O resultado é que o tempo efetivo dedicado ao ensino é menor.

''Nos anos 80 e 90, o Banco Mundial achou que investir no ensino fundamental era mais produtivo do que no universitário. Mudou a educação na América Latina a partir de um modelo que não era sólido''


ÉPOCA - Quais países oferecem uma educação exemplar hoje?
Fischman -
Países como Finlândia e Noruega, entre os países ricos. Mais perto da realidade econômica da América Latina, muitos países do Sudeste Asiático, como Taiwan, Coréia do Sul e Tailândia, investiram em educação nos últimos anos, especialmente no ensino universitário. Hoje, a situação educativa e social de alguns deles é muito melhor. Mas a educação não pode ser pensada como um investimento de curto prazo. É um esforço de décadas.

ÉPOCA - Há países pobres ou em desenvolvimento que podem ser referência na área?
Fischman -
Eu citaria Cuba, Uruguai e Costa Rica, que apostaram na educação pública e conseguem oferecer ensino de qualidade. Talvez a diferença fundamental seja que nesses três países o investimento educacional é de longo prazo. Ali se pensa o acesso e a permanência na escola como uma política de Estado. Claro que, nos casos de Costa Rica e Uruguai, são Estados identificados com ideários democráticos e, no caso de Cuba, com os princípios do socialismo.

ÉPOCA - Um país com poucos recursos deve priorizar o investimento no ensino fundamental e médio ou no universitário?
Fischman -
Em qualquer país o investimento não pode ser direcionado para um único lado. O Estado tem de atender à demanda desde a educação infantil até a faculdade. Se alguns países pararem de comprar armas, por exemplo, poderá sobrar dinheiro para a educação. Quando algum dos níveis já funciona bem, os outros podem ser priorizados. Porto Alegre, que é referência no ensino público fundamental, poderia canalizar seus recursos para o ensino médio e o universitário.

ÉPOCA - Muitos países pobres e em desenvolvimento priorizam o ensino fundamental. É o mais recomendado?
Fischman -
Nos anos 80 e 90, o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional forçaram políticas de ajustes econômicos que tiveram grande efeito sobre a educação na América Latina. Os planos implicavam, em muitos casos, condicionar créditos a mudanças no sistema educativo. O Banco Mundial achava que investir no ensino fundamental era muito mais produtivo do que no universitário. Hoje o banco reconhece que essa política se baseava em pesquisas insuficientes. Mudou-se toda uma política de educação na América Latina a partir de um modelo que não era sólido.

ÉPOCA - Incluindo a participação privada, o Brasil investe cerca de 4,3% do PIB em educação. Não é bastante?
Fischman -
Os países ricos investem cerca de 5% ou 5,5% do PIB. Mas não é conveniente fazer comparações diretas sem levar em conta as situações das distintas regiões dentro de um país. Um dos grandes desafios é ver para onde vão esses recursos. No Brasil, por exemplo, a Região Sudeste é mais rica e ao mesmo tempo investe mais do que o Norte e o Nordeste. A educação tem de ser pensada como ferramenta com alto potencial de redistribuição. Por isso, o ensino público tem de ser prioridade de qualquer governo.


quarta-feira, 30 de março de 2011

Palpites dogmáticos - Leituras de Veja

Sensacional!!!! não consigo achar palavra que descreva melhor a crítica que Gabriel Perissé (Prof. Doutor em Educação - USP), faz à Revista Veja (Arrghhh!) e ao articulista Gustavo Ioschpe que escreve sobre Educação.
Vale muito a pena ler! Comentem.
Mirtes.


LEITURAS DE VEJA
Palpites dogmáticos

Por Gabriel Perissé
A revista Veja não economiza espaço quando se trata de divulgar os palpites de Gustavo Ioschpe sobre educação. Não haveria um articulista mais articulado para essa tarefa? Ou, pensando melhor, Ioschpe e Veja vivem em total harmonia. As afirmações de um, abalizadas pela outra, demonstram, apesar do tom peremptório e seguro, uma fragilidade teórico-prática impressionante.
Ioschpe costuma aludir a pesquisas (não especificando, na maioria das vezes, que pesquisadores são esses, que pesquisas são essas, onde consultá-las), dando como líquido e certo tal ou qual verdade. Na Veja de 13/10/2010, por exemplo, escreveu um artigo, "Educação de qualidade: de volta ao futuro", do qual destaco o seguinte trecho:
"[...] as pesquisas empíricas [...] mostram que a presença de computadores nas escolas não tem nenhum impacto sobre o aprendizado."
Contudo, já no final do século 20, pesquisadores do mundo inteiro reuniam experiências que demonstravam como a utilização de computadores e da internet tornam as práticas docentes motivadoras. Bastaria citar um estudo de 1998, "The emerging contribution of online resources and tools to classroom learning and teaching", e, para entender a necessidade de a escola ingressar na Idade Mídia, o livro de Don Tapscott, A hora da geração digital (Agir Negócios, 2010).
Ainda nesse artigo de Ioschpe, outra pérola:
"Sindicatos mais poderosos pressionam para que o grosso da verba de educação seja gasto em aumentos salariais e diminuição do número de alunos em sala de aula, duas variáveis que não têm relação com a qualidade de ensino."
Tentativa de corrigir uma injustiça

Contudo, qualquer psicopedagogo, qualquer educador haverá de nos dizer que em turmas reduzidas o professor conseguirá dar atenção mais individualizada, poderá perceber melhor progressos e dificuldades de cada aluno, detectando os problemas e intervindo com mais eficácia. E, quanto aos salários, é difícil acreditar que pesquisadores (motivados por bolsas de estudos, talvez com ajuda do exterior...) dediquem seu tempo para descobrir que aumentos salariais não motivam professores...
Em dezembro do ano passado, visivelmente abalado com a vitória de Dilma Rousseff, Ioschpe, em novo artigo (Veja, 29/12/2010), intitulado "Aumentaram os gastos, mas a qualidade...", teve a coragem de escrever:
"[...] esse governo [federal] foi extremamente generoso nas concessões e omisso nas cobranças. Instituiu um piso nacional de salário para o magistério, atualmente em 1.024,00 reais. O salário médio do professor brasileiro subiu de 994 reais em 2003 para 1.527,00 reais em 2008 [...]. O governo, porém, não fez nenhuma intervenção mais forte nos cursos de formação de professores das próprias universidades federais, que continuam despejando no mercado profissionais despreparados para o exercício da docência."
Ora, não se pode usar o advérbio "extremamente" em relação a uma generosidade nada extrema. Aliás, nem de generosidade se trata, mas da tentativa (tardia!) de corrigir uma injustiça: o salário de um professor de escola pública com diploma universitário equivale, hoje, a 60% do que recebem, em média, profissionais com o mesmo nível de ensino.

Realidade se resume a poucas palavras

E não são as universidades federais que "despejam" professores despreparados no mercado! Na década de 1990, calculava-se que 80% dos professores da rede pública estadual de São Paulo formaram-se em faculdades privadas. Em 2008, o MEC divulgou estudo segundo o qual 70% dos professores aptos a lecionar no ensino básico do Brasil formaram-se em faculdades e universidades particulares.
Andar na contramão da realidade pode provocar acidentes. No caso de Ioschpe, suas declarações entram em rota de colisão com o óbvio. Nem precisaríamos recorrer a teses de doutorado ou pesquisas financiadas por bancos ou assemelhados. Em novembro e dezembro de 2010, e neste mês de janeiro, o articulista publicou em três partes um artigo cujo título não é nada ambicioso: "Como melhorar a educação brasileira". Basta-nos ler (e brevemente comentar) alguns dos seus melhores momentos...
"Muitos professores chegam atrasados a suas aulas. Perdem tempo fazendo chamada, dando recados e advertências. É um desperdício" (Veja, 10/11/2010).
Correto. Mas essa constatação é insuficiente. Por que muitos professores chegam atrasados? E por que a chamada é tão prolongada (ao mesmo tempo que exigida pela burocracia escolar)? E por que cabe aos professores darem recados e advertências? Se Ioschpe fizesse as perguntas certas aos que vivem essas realidades estaria realizando verdadeira pesquisa empírica e acabaria por descobrir uma realidade que se pode resumir em poucas palavras: professores sobrecarregados e turmas com grande número de alunos.

Uma breve pesquisa informa o óbvio

Outro momento de Ioschpe, influenciado pelos noticiários sobre o Morro do Alemão:
"É curioso: nossos governantes criaram coragem para invadir o Morro do Alemão, mas as universidades públicas continuam sendo consideradas território perigoso demais para a ação saneadora do estado. Esculachar bandido armado de metralhadora é mais fácil do que peitar os doutores da academia, que permanecem livres para perpetrar seus delitos intelectuais" (Veja, 22/12/2010).
Mais do que curioso... é incrível que alguém possa, impunemente, comparar bandidos e professores universitários! Que tipo de "limpeza" deveria ser feita nas universidades públicas? Não seria o caso de imaginar que as particulares merecem igual ou maior rigor?
Um último parágrafo:
"Em termos de regime de trabalho, ao contrário dos desejos dos sindicatos, a maioria das pesquisas mostra que não faz diferença, para o aprendizado do aluno, quantos empregos o professor tem, se trabalha em uma escola ou mais" (Veja, 19/01/2011).
De novo, impressiona ler uma afirmação dessas. Será que, além de desconhecer a escola pública, Ioschpe ignora a realidade vantajosa das escolas particulares, cujos alunos obtêm os melhores resultados no Enem?
Uma breve pesquisa na internet informa o óbvio. As melhores escolas possuem laboratórios, computadores e biblioteca. Seus professores são bem remunerados, o que lhes permite dedicação exclusiva, ou quase exclusiva, com tempo necessário para prepararem aulas inovadoras, em geral empregando recursos tecnológicos.


Fonte: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/